sábado, 17 de julho de 2010

A BANHOS NA NAZARÉ




A Nazaré não é a esposa do merceeiro, é a praia mais castiça de Portugal e arredores.

No tempo em que parelhas de bois barrosões arrastavam lentamente os barcos a remos pela praia, encaminhando-os para a melhor zona para entrar no mar, ou ajudando a recuperar as redes, não havia “porto de abrigo”. A bendita construção veio trazer à Vila a segurança dos homens e das embarcações e com ela as mulheres das sete saias, podiam agora aliviar-se de preocupações.

O abrigo do porto obrigou a frota a “estacionar” em segurança, devolvendo aos veraneantes uma boa fatia de areia. Pelo chão ficaram os anzóis XL, que todos temíamos pisar e um conjunto de barcos que morreram na praia e que serviam de guarda-sol aos que se esqueceram do dito. O chão de sílica, que recebia as redes de pesca efervescentes de vida, estava agora desimpedido. Apenas as redes do “carapau escalado” nos reportavam a outra época e nos faziam lembrar parte do “postal ilustrado” que era, no seu todo, este pitoresco amontoado de casas de gente que vivia essencialmente do mar.

Do Sítio, observamos o mar imenso, rematado de espuma e tocado pelo vento norte. Cá em baixo, o listrado das “barracas”, perfeitamente alinhadas, coloria a zona vigiada pelos “banheiros”. Nesta altura, a televisão ainda era a preto e branco e “marés vivas” não era a série com da peituda Pamela Anderson, mas a revolta de mar que sacudia todo o que nele quisesse entrar.

Os putos, cumprindo a vontade dos médicos e dos pais, eram mergulhados nas águas salgadas do oeste contra a sua vontade. “Banheiros” experientes, sabiam como fazê-lo por entre o pavor, a respiração ofegante e as inalações de água salgada que saíam pelo nariz na forma de bolas de sabão de ranho.

Alguns adultos, pouco dados a estes ambientes anfíbios, “ficavam na barraca”, ao abrigo do Sol, comendo pevides e tremoços salgados. Outros, mais valentes, “iam às traineiras e vinham”. As “mulheres do campo” não arriscavam muito, mostrando apenas, pudicamente, os joelhos ao astro-rei e a um ou outro mirone imbecil, que sempre os haviam em quantidade nestes sítios com muita gente. Só as senhoras ousavam vestir fatos de banho, opacos e aconchegantes, verdadeiras armaduras de nylon que usavam com toucas de borracha às florzinhas, que lhes mantinham as carnes e os penteados nos devidos sítios. Amiúde, vinham à beira-mar pontapear as ondas que lhes espraiavam junto aos pés. Só as crianças quebravam as regras e “despiam-se para a ocasião”, fazendo com a areia, castelos esconsos que a subida da maré invariavelmente destruía.

A mulher de negro que ajeita o lenço na cabeça, escondendo um buço que mais parece um mustache, vende tremoços e amendoins numa banca de madeira e aluga quarto aos “cámones”… - rumesse, xambre, xambre, … quer “alugare” senhor, diz a velha nazarena sem estar certa de o conseguir, tentando adivinhar se a família é francesa ou é das Fazendas de Almeirim.

Agora é tirar o sal do corpo, vestir roupa lavada e jantar mais cedo, é preciso subir ao Sítio e comprar bilhetes para a tourada.
– 3 toiros 3 – Ganadaria Palha Blanco. A cavalo Simão da Veiga e Mestre Baptista, Forcados do Aposento da Moita e a pé, o africano Chibanga, exímio a bandarilhar na cara do toiro, vai tentar pregar os pés no chão da arena e deixar a besta, espumando da boca, roçar indelevelmente as lantejoulas do traje de “luces”, tentando com isso arrancar aplausos àquele aficionado do sector-sombra, que apregoa valentia, mas que não saltava lá para dentro, nem que lhe pagassem.

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