sexta-feira, 9 de julho de 2010

RITA, DE SEU NOME




Antigamente a escola não era igual à de hoje… e ainda bem!
Com o passar dos anos vieram as mudanças, os estatutos sociais alteraram-se, as políticas também e um professor “primário” está longe de ter estatuto de “importante”. Este grau conferia-lhe, em tempos idos, uma sobranceria equiparada hoje à dos jovens gestores bem sucedidos, daqueles que usam botão de punho herdado do avô paterno. Um professor jamais será “autorizado “ a bater num puto, como o faziam até aos anos setenta (pelo menos), mesmo que, incentivado pelo pai ausente, rústico e pouco sensível que ao professor dizia -“se ele se portar mal, o senhor professor, não lhe perdoe”- Ora, era o que docente (indecente) queria ouvir.

A coberto da insensatez do pai, aquilo eram favas contadas e então quando os trabalhos de casa coincidiam com as brincadeiras de rua, o mais certo era a mala ficar fechada até ao dia seguinte. Como os pais dos meninos, muitos deles analfabetos, tinham mais que fazer, a pergunta sacramental era - “fizestes” os trabalhos da escola?. Nos sessentas, havia aulas também ao Sábado, até ao meio-dia, um pouco diferentes é certo mas igualmente obrigatórias.

Desses tempos, do quadro de ardósia e do apagador de feltro, do estrado ao canto da sala, onde se apoiava a secretária do “mestre-escola”, da “cana da índia”, comprida e seca que acabaríamos por descobrir (na pele, e nas orelhas) que não servia só para apontar o mapa de Portugal. Normalmente a vara de bambu, semelhante a cana-de-pesca sem passadeiras, era presente de um colega “estúpido” que logo-logo ia descobrir que seria o primeiro a estreá-la. Na parede, sobre o quadro e a porta, ladeando um crucifixo de madeira com a representação em metal, disputavam importância dois retratos a preto e branco; o senhor Presidente do Conselho, que acabaria por cair da cadeira (ou foi da banheira?) e o senhor Almirante, esposo amorfo da Dona Gertrudes, conhecida pelo seu penteado tipo juba de leão. Os dois, omnipresentes em todas as salas de aula, observavam-nos a cantar o hino nacional, de pé, e a apanharmos com ela, em ambas as mãos.

Nenhum dos três, dependurados na parede da sala, tinha pena de nós. “Abandonadas” na escola, as crianças tinham pouco estatuto. Eram crianças que um dia seriam homens, e pronto. Dentro da sala ninguém nos podia valer e então quando era dia de distribuir as provas, feitas em papel azul de 25 linhas, o estômago revolvia-se tentando reter o papo-seco comido à pressa ou a caminho da escola. Era difícil manter a calma perante a saraivada de reguadas que se adivinhava. A uns mais do que a outros, naturalmente, mas sempre havia aquele “bombo” que servia de “saco das marradas” e de exemplo. O que nos salvava as mãos, postas ao rubro em menos de duas reguadas, era o ferro forjado das “carteiras” que, pela sua condição de metal se conserva fresco e nos supria a dor. Um bálsamo sempre a jeito, para ambas as mãos. O professor, em solene ritual, tirava o casaco, aliviava a gravata, arregaçava as mangas da eterna camisa branca e chamava pelos nomes. Sobre o tampo da secretária, mas em cantos opostos, lá estavam os exercícios, os “maus” de um lado e os “bons” do outro, sendo que o nosso podia estar em qualquer um dos cantos. Por incrível cobardia, o nome escolhido para a régua com que amiúde e com força, nos mostrava na palma das mãos, chamava-se Rita.

Era esse o nome dado aquele pedaço de tábua, que um dia partiu o relógio ao Casimiro, não só por este usar o mostrador virado prá palma da mão, mas também por ter errado as contas de multiplicar com 3 algarismos.

Sem comentários:

Enviar um comentário